PALAVRAS SOBREVIVENTES
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José,zé, Antonio, Zé. Talvez o sentir seja o umbigo aconchegante de todo o plasma sufocante deste mar de acasos. A necessidade se dissolve com a sutileza do perigo que nos aconchega. O sigilo se faz por si próprio nesta sobrevivencia de suspiros de movimento, de carinho e de sensação. Representado pela palavra. A palavra sobrevivente... comecancer@hotmail.com zeabrcast@yahoo.com.br

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Segunda-feira, Novembro 17, 2008


eu não ligo

eis que o corpo se torna uma arma
e toda a vida se passa como um furacão
pois tudo fez sentido
e uma caverna
nos mostra como
como é que se faz



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Quinta-feira, Novembro 13, 2008


o mais profundo mártir(cristo?)
a mais profunda solidão
o mais profundo deus
que me disse para viver

que nunca se sabe onde vai estar
nunca se sabe de nada
só da mais profunda sensação de estar aqui
contigo mesmo

não há espaço para nada



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Terça-feira, Novembro 11, 2008


a criança de abriu demais que chegou à adolescência...
ao sair disso ele se fechou para ser adulto, retornando à infantilidade
mas viveu como nunca
num terreno baldio
e as coisas foram felizes
na velocidade de tudo que se pode culpar e chamar de briga
brigas de rua
um nariz estancando sangue
ou um amor que ninguém compreende
exército de um homem só
que dá piruetas, sorri e tenta ver
até onde aguentar
até socar com o punho fechado
vida nas ruas



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Segunda-feira, Novembro 10, 2008


silencio, por que as vezes inventamos a força por dentro da mola que resiste fora de nós



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Domingo, Novembro 09, 2008


Transviados

eu não sei quando isso vai aparecer
tenho impressão que todos os dias aparece
mas quero essa impressão na minha pele
uma marca de todo dia, que se corta e marca como borracha
não tem limites
I love them
i love them
espero o dia em que isso apareça como um alívio
um alívio para a dor
da mesma forma
então não falo isso pra ninguém
pois se você está aqui significa que a vida acontece
sob outras regras

eu lembrei que a alemanha desejou Hittler
e isso apavora qualquer coração desestabilizado
(geração reichenstag)

pela calçada a gente se anda e se esbarra
pois os problemas sempre andam ao nosso lado
o maior problema dos filhos são os pais
por isso que fugimos correndo para a calçada da rua
buscando o cuidado que não temos em casa
e para sempre
para durar sempre
todo o dia em que perdermos o carro numa corrida



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Sexta-feira, Novembro 07, 2008


um gesto violento fez toda a festa começar

"Se existe algo que provoca riso quando se fala em revolução, evidentemente é porque o movimento revolucionário organizado desapareceu desde faz muito tempo dos países modernos, onde precisamente se concentram as possibilidades de um transformação decisiva da sociedade. Mas todo o resto é ainda muito mais irrisório, posto que se trata do existente, e das diversas formas de sua aceitação. O termo "revolucionário" está desprestigiado até o ponto de designar, como publicidade, as menores mudanças nos detalhes da produção, modificada sem cessar, das mercadorias, dado que em nenhum lugar estão ainda expressas as possibilidades de uma transformação central desejável. O projeto revolucionário de nossos dias aparece como acusado diante da história: é acusado de ter fracassado, de ter descambado numa nova alienação. Isto nos torna a constatar que a sociedade dominante soube se defender, em todos os níveis da realidade, muito melhor do que os revolucionários previam . Não é que a sociedade dominante se tornou mais aceitável. O que se passa é que se deve reinventar a revolução, isso é tudo. "
Publicado em Internationale Situationiste # 6 (1961). Tradução para o espanhol de José Domínguez Tenreiro publicada em Panfletos y escritos de la I.S., Madrid, Fundamentos, 1976. Traduzido do espanhol.

"De então até hoje... nada. Por quase meio século, a arte tem se repetido, cada repetição mais fraca e mais vazia do que a anterior. Somente hoje, com os primeiros sinais de uma revolta mais altamente desenvolvida num capitalismo mais altamente desenvolvido, o projeto radical de uma arte moderna pode ser assumido – novamente e mais coerentemente. Não basta que a arte busque sua realização na prática; também é preciso que a prática busque sua arte. Os artistas burgueses, rebelando-se contra a mediocridade da mera sobrevivência, que era tudo que sua classe podia garantir, estiveram sempre tragicamente em oposição de propósitos com o movimento revolucionário tradicional. Enquanto os artistas – de Keats aos Irmãos Marx – tentavam inventar a experiência mais rica possível de uma vida ausente, a classe operária – no nível de sua organização e teoria oficial, pelo menos – lutava pela mesma sobrevivência que os artistas rejeitavam. Só agora, com o Welfare State, com o acesso gradual do proletariado ao padrão, até então ´burguês´, de conforto e lazer, os dois movimentos podiam convergir e perder sua animosidade tradicional. Como, numa sucessão mecânica, os problemas da sobrevivência material são resolvidos, e considerando que a vida, numa sucessão igualmente mecânica, torna-se cada vez mais asquerosa, toda revoltas se torna essencialmente uma revolta contra a qualidade da experiência. Conhecemos poucas pessoas que estão morrendo de fome. Mas todos sabem o que é morrer de tédio."
"O projeto revolucionário, sonhado em meio às satânicas e sombrias fábricas da sociedade de consumo, só pode ser a criação de um novo modo de vida como um todo e a subordinação das forças produtivas a esse fim. A vida deve se tornar um jogo de desejo, jogado consigo mesma. Mas a redescoberta e a realização dos desejos humanos é impossível sem uma crítica da fantástica forma pela qual esses desejos têm sempre encontrado a realização ilusória que permite sua repressão real continuar. Hoje, isso significa que a ´arte´ – fantasia erigida em cultura sistemática – se tornou o Inimigo Público Número Um. Isso também significa que o tradicional farisaísmo da esquerda não é apenas mais um embaraço incidental. Ele se tornou mortífero. Doravante, a possibilidade de uma nova crítica revolucionária da sociedade depende da possibilidade de uma crítica sexual-revolucionária da cultura e vice-versa. Não há porque subordinar a arte à política ou vice-versa. Trata-se de superá-las, como formas separadas que são."
Manifesto da Seção Inglesa da Internacional Situacionista: Tim Clark, Christopher Gray, Charles Radcliffe e Donald Nicholson-Smith.
A Revolução da Arte Moderna e a Arte Moderna da Revolução





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Quarta-feira, Novembro 05, 2008


as ruas estão aí para isso
meu jogo de cintura
e esse foi você quem fez?
esse poema tão belo
que nunca irei saber do que será
do que será de mim
eu digo
toda poesia é farta de significado
mamãe oxum
era toda hora que eu lembrava de você
pois não havia forma de largar a tua mão
fiquei solto na sala
de aula
da cela
da delegacia
ouvindo tua voz
escrevendo poemas
para curar a azia
de todos os dias



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Domingo, Novembro 02, 2008


até segunda ordem só confio em ordens clandestinas
por toda clandestinidade que existe em viver plenamente
clandestino
nada pode ser revelado pois vivemos num bueiro
como num programa de televisão que nos vemos sentados numa poltrona
e tudo podemos publicamente
pois nunca nos vemos de fato fora da televisão
só na clandestinidade
no lado clandestino da vida
no lado que sabemos ser o que nunca poderiamos na frente de uma televisão absurda
que mostra uma vida absurda
mais genial que a verdadeira
mais podre que a verdadeira
mais brutal que a clandestina
a ultima é que insiste em viver de toda forma



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Sexta-feira, Outubro 24, 2008



Dizia todo dia pra nunca me meter em confusão mas sempre lembrava do que a minha mãe falava sobre ser feliz e buscar o elo perdido com dignidade.
Não tinha razão não, eu fiz tudo por carência e carinho mesmo. Eu assumo o fardo. Tinha visto televisão e ouvido Neil Young, já tinha feito coisas em mim irreversíveis, como pode ser toda uma infância. Por mais que você receba amor ou não, são coisas irreversíveis e sem fim.
As suas mãos tremiam suadas. Por que ao mesmo tempo sabia que tinha feito algo de errado, mas não tinha volta e ao mesmo tempo sabia que era impossível não fazer. Por que a gente passa a infância e adolescência brincando de sonhar com tudo, com qualquer coisa. Mas chega a hora que a gente percebe que todos aqueles sonhos eram sérios. Aí fudeu. Pois não era mera masturbação, era amor e sonho. Que acordou sem respirar e com medo das consequencias.
Caminho sem volta rapá, se vira.
De manhã as coisas sempre pioram, porque a realidade não foi embora. A versão do sonho era real e não a realidade era mero desejo. Pensava em fumar como nunca, pois nada acontecia de interessante além da dor de ontem à noite. Ações mudam o mundo, mas quando não acontece nada o que a gente faz?
Gritamos sempre por ação, ação, ação... mas a realidade é que nada acontece. Clamamos por realidade, mas o que acontece de fato é que a realidade é um imenso e vasto terreno de fatos irreversíveis e estáticos. Pois a realidade é lenta e crua. Forte e emocionante como queremos, mas lenta e dura como odiamos. Tédio, como nunca deveríamos ter sentido, pois é pecado. Seja na igreja, na festa, na boate, na escola ou numa reunião de amigos. Queremos a luta de classes, pois a realidade é impossível. Como um sonho ruim e chato. Sonho ruim. E quando está assim pensamos em outras coisas mais emocionantes, pois assim deve ser a realidade: objetiva e concreta.



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Segunda-feira, Setembro 01, 2008


Resolvi ficar sozinho
mas você não cabe no meu mundo



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Quinta-feira, Agosto 28, 2008


tantas coisas
tanto amor, tanto dor, tanto tudo
tanta cor desse mundo
tanta vida que mistifica
tanta alma que alucina
tanta coisa que não dá
que não dá
não dá pra sair sem pensar
pra pensar sem viver
sem viver ou perceber
que há coisas que nunca acabam
e nunca cessam
mas muita vida acaba
como a própria vida
e com a nossa vida
quando vivemos tanto
e tão forte pela vida
que a dor é certa
entra e sai e desce
como se nada tivesse no chão
mas para ver o céu lá em cima
num silêncio de sempre
mesmo que ninguém te ouça quando você grita



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Domingo, Agosto 24, 2008


Amor meu grande amor, toca o telefone e não sai musica. Porque tudo que foi feito em dois anos de nascimento do mundo eram horas de prazer sem uma felicidade decente. Eis que joguei no chão um pedaço da grana que guardava no bolso. Era nada mais do que não foi de mim. Nada foi o que deveria ser, eu sentia uma leveza constante. O sabor da droga era o tempo sem horas contadas ou impossíveis de se contar. Meio escroto esse papo, mas o futebol tinha acabado e o mengão perdeu, o que eu podia fazer? Dizer que não presto e largar o meu coração no sofá. Talvez lá fora tivesse um terreiro de macumba e eu tomava cachaça de graça. Engolia com todo o prazer de quem só sabe dizer "obrigado". Deus tava atolado de contas para pagar. O meu trabalho era um coração partido. Sem um Partido para me consolar eu era um zero à esquerda. Aí que a poesia era mais forte que mil teorias e um canivete bastava para eu me defender...



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Domingo, Julho 27, 2008


manifesto anti-manicomial

são poucos aqueles
tão loucos para todos
e se tornam muitos para todos eles



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Quarta-feira, Julho 02, 2008


a poesia é dura como uma rocha
não há rima que amoleça
dura como a vida
que por ela é entorpecida
a poesia é dura
sem figura
tem que pisar e se furar descalço
sem paixão, só desespero
a poesia é dura
e necessária
como a violência
ela é dura
e trágica
insuportável
como os Estados



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Segunda-feira, Junho 16, 2008


eu tentei botar aqui uma musica
mas ela não conseguia explicar os calafrios que sentia nas costas
é melhor ficar ouvindo o som como um estúpido passarinho
e pedir vergonha a Ian Curtis...
mas o que eladizia pra mim
pra mim?
não só pra mim, mas o que ela dizia?
maldita poesia, estraga todos os momentos

atravessando os momentos, sem nenhuma emoção
eu espero você






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